Política e modernidade na geografia brasileira

Antonio Carlos Robert de Moraes

O sol há de brilhar mais uma vez,
a luz há de chegar nos corações.

Nelson Cavaquinho

O panorama teórico atual da geografia brasileira apresenta uma diversidade considerável de orientações e filiações metodológicas, com os fundamentos de método (e mesmo conceituais) muitas vezes arrumados de forma pouco sistemática ou mesmo em arranjos bastante incoerentes. Um ecletismo difuso e não explicitado emerge em muitos trabalhos do campo disciplinar no país. A ânsia por atualização acadêmica internacional, estimulada pelos programas de pós-graduação e pelas agências de fomento, é em parte responsável por este clima babélico, ao gerar uma corrida pela busca de referências bibliográficas inovadoras como critério de avaliação do prestígio dos pesquisadores [1]. Além disso, a importação acrítica de teorias, e sua difusão num tom doutrinatório, alimenta um debate metodológico fechado, que se realiza de forma quase totalmente desconectada da produção empírica da disciplina acerca do Brasil. Completando o quadro panorâmico, emergem as ortodoxias de diferentes matizes, gerando respostas metodológicas para qualquer questionamento (seja teórico ou empírico). Motivos não faltam, portanto, para aprofundar a discussão sobre os usos do método na reflexão geográfica brasileira hoje.

1) Se concordamos com David Harvey, que o atual momento que vivemos se instalou a partir do início dos anos de 1970, devemos acatar que as obras escritas antes de tal data não dão conta da especificidade do período histórico contemporâneo [2]. Isto não equivale a aceitar que o mundo da atualidade seja inteiramente novo ao que lhe preexistia. A melhor tradição de análise da história diz que o tempo é um constante fluir de continuidades e rupturas, e cujos padrões e conteúdos buscamos captar (ou construir) com a ação do intelecto. Compreender a especificidade de uma época implica desvendar tanto as permanências quanto as particularidades que a singularizam. E estas (numa concepção materialista) exigem a vivência como base da teoria.

Vivemos na plenitude da ordem capitalista, que se expandiu como nunca antes no espaço e atinge uma velocidade de transformação ímpar em sua própria história. Hoje, diferenças geográficas são criadas, combinadas, destruídas, interconectadas, e renovadas a cada momento, em redes e fluxos materiais e virtuais em variadas escalas. E a "ciência dos lugares", "da diferenciação de áreas", "da relação homem-meio", se sente um pouco desorientada no frenesi das mudanças observáveis na superfície terrestre. Some-se a isso o mal-estar contemporâneo no plano do pensamento [3], e os questionamentos dirigidos à razão iluminista, sustentáculo teórico do mundo em que vivemos e de sua dinâmica: a modernidade. O pleno funcionamento de uma economia-mundo planetária e unipolar surpreende, entre outros, os geógrafos.

E nós, os "meridionais" [4], participamos desse processo contemporâneo (por muitos chamado de "globalização") a partir de uma posição que expressa uma permanência: vivemos na periferia do sistema, atravessados de forma seletiva pelos seus fluxos e determinações. O centro ainda nos concebe e manipula como área de ajuste, se bem que hoje em dia no just-in-time, o que em grande parte sustenta a ilusão da descentralidade (ou mesmo da a-espacialidade) do capitalismo contemporâneo. A condição periférica confere aos países pós-coloniais a vivência da modernidade associada à convivência com relações societárias pré-modernas (o que impõe uma distinção forte no campo da geografia). Aqui, a começar da nação e do Estado, tudo é marcado pela adaptação a uma funcionalidade exógena, que serve de referência ao nosso próprio entendimento dos processos [5].

Contudo, estar na periferia da economia-mundo não significa estar fora da história, num lugar de não-protagonistas dos eventos, num limbo político reativo [6]. Mas é necessário estar atento a que a dinâmica capitalista manifesta-se meio diferente nas bordas e nas margens de seu espaço econômico central, pois tais diferenças definem em muito nossa particularidade sócio-histórica e geopolítica. A atração do colonizado ao mimetismo com o centro, acentuada hoje pelas tecnologias globais, não pode enturvar a afirmação da posição geográfica (e o ângulo) na qual vivemos a contemporaneidade e a "globalização". Se os teóricos do passado não nos explicam plenamente o mundo do presente, também não explicam a nossa situação específica (no mundo) as teorias vindas do centro. Nesse sentido, a simultaneidade com as últimas teorizações das áreas de excelência do campo disciplinar não garante de imediato o entendimento da atualidade periférica e de suas contradições próprias [7]. Antes, podem servir para introjetar teorias e conceitos que dificultam a reflexão sobre nossas particularidades históricas.

2) Preocupantes, em face do contexto exposto, são as teorias geográficas atuais que negam as escalas ou que diluem a condição periférica, encantadas pelo ritmo das transformações e por sua intensidade no tempo e no espaço [8]. Uma das expressões mais candentes do presente histórico (a "hipermodernidade" ou o "capitalismo tardio") reside na ilusão da superação total do passado e na crença de que vivemos um mundo inteiramente outro (estranho e sem memória). Pós-modernismo é o nome mais usual que se atribui a esta corrente de pensamento, que hoje influencia fortemente o campo disciplinar da geografia. O abandono da busca de sentido na história (próprio das "grandes narrativas" agora finalizadas) emerge como elemento estruturante dos discursos desconstrutivistas. O proclamado "fim das ideologias" [9] se faz acompanhar da impossibilidade lógica de formulação de projetos alternativos ao "mundo da mercadoria", tornando a crítica mera retórica. Uma geografia despolitizada - ao mesmo tempo cosmopolita e localista [10] - emerge de tal fundamentação.

A idéia de uma universalidade geográfica das práticas sociais (a constituição do espaço geográfico como uma "totalidade empírica", nos termos de Milton Santos [11]), anima juízos finalizadores acerca das divisões e subdivisões da superfície terrestre, minando o conteúdo objetivo de conceitos disciplinares clássicos, como região e território, que cada vez mais vão sendo definidos como referentes à esfera da consciência dos sujeitos individuais. Uma antropologização excessiva do quadro conceitual básico da geografia é a expressão maior de tal orientação, que tem na crítica e na recusa do Estado como agente social um ponto de convegência [12]. Nesse sentido, o território das "revoluções moleculares" é subjetivo, e o espaço dos "esquizofluxos" é uma experiência pessoal e a região uma evocação sentimental (e tudo flui no etéreo mundo dos discursos e das representações, no qual não devemos assumir posturas valorativas). Eis o suave caminho de legitimação acadêmica do estabelecido, do "mundo prático" (em termos habermasianos).

As geografias pós-modernas acabam, portanto, por reificar as singularidades do presente histórico, ao desconectá-las radicalmente de um passado tido como (teórica e ontologicamente) superado. Paradoxalmente, a crítica radical da modernidade faz o elogio de sua essência: o indivíduo autocentrado no mundo global sem sentido e em constante transformação. "Tudo o que é sólido desmancha no ar", já ouvimos esta frase noutros contextos [13]. Então, o que se passou: o conhecimento avançou tanto que tornou o mundo irreconhecível? Ou o mundo ainda é o mesmo e tudo que pensávamos antes é que era ilusão? Os dilemas pós-modernos animam o campo das divagações abstratas, mas também sedimentam juízos e posturas em face do conhecimento agora qualificado como "antigo" ou "superado". A crítica do modernismo impõe um relativismo cético: eu sei e não posso fazer nada, pois sei que saber o que fazer é errar.

Enquanto isso, a vida prática flui com guerras, empreendimentos, poder, governos, lucros, e toda a conhecida desigualdade inerente à sociabilidade capitalista [14]. Diria Fernando Pessoa (com a devida licença poética): "é ele, o Esteves, sem metafísica". E a "velha" geografia-nova, que começava a intentar uma explicação da espacialidade contemporânea, ultrapassando o patamar da descrição empírica tradicional, tornou-se alvo central da crítica da vanguarda disciplinar, num processo tão intenso que o resgate do empirismo começa a emergir hoje como uma alteridade viável (como uma saudável reação antiteórica em alguns discursos atuais). Contudo, a volta ao passado não parece ser um bom caminho para o avanço da reflexão em qualquer campo.

3) Se, por um lado, a geografia brasileira contemporânea é atravessada pelas posturas dos pós-modernos, por outro, temos também um forte conjunto de tendências que assumem a defesa das formas pré-modernas de sociabilidade, fazendo do anacronismo uma orientação metodológica. O culto da tradição e da vida tradicional encontra campo fértil de difusão na geografia dos países periféricos, seja por meio da discussão ambientalista (e a defesa dos meios naturais "originais" e das populações "tradicionais"), seja no elogio direto do gênero de vida camponês e seu "potencial" de resistência ao avanço da globalização [15]. Pelos dois caminhos teóricos uma concepção agrarista do Brasil é retomada, sem a devida avaliação historiográfica do papel de tal visão na história brasileira do último século. Pode-se perder aí toda uma crítica ao autoritarismo político e ao conservadorismo cultural na vida rural brasileira. Enfim, para esta orientação, a pré-modernidade, mais que um elemento particularizador, é tomada como uma positividade para o devir do país, numa abordagem onde as experiências históricas de rerruralização de sociedades já urbanizadas não são devidamente analisadas [16].

Na verdade, com as posturas acima mencionadas entramos no reino da história totalmente explicada, de um passado teórico exemplar que permite interpretar até processos que não existiam quando foram escritos os textos assim canonizados. Para os pré-modernos o mundo é límpido e simples, num itinerário onde as argumentações caminham mais no sentido da ética que no da lógica, gerando não raro textos mais literários que científicos em termos de estrutura e enunciados (desculpem o positivismo). A visão da história adotada possibilita que se equacione a atual economia brasileira com esquemas teóricos de cinquenta anos passados ou mais, o que bem revela a despreocupação para com o presente histórico. No contexto de tal posição teórica, o otimismo da vontade anula totalmente o salutar pessimismo da razão, alimentando um milenarismo revolucionário pouco explicitado, notadamente em sua institucionalidade futura.

O pré-modernismo parece conceber o capitalismo como uma realidade congelada, a-histórica, sem movimento interno e sem renovação. Nessa perspectiva perdem a atualidade do modo de produção e seu funcionamento contemporâneo. Ficam, assim, prisioneiros das contradições por demais genéricas para informar a ação política, tendo de optar entre o teoricismo acadêmico ou o pragmatismo partidário, cindindo inexoravelmente a idéia de práxis. E mais, parecem esquecer nesse percurso toda a "positividade" do capitalismo (de que falava Marx), geradora de valores como a democracia representativa e os direitos humanos, entre outros [17]. A recusa ao Estado e o enfoque localista estabelecem pontos de diálogo entre o elogio da pré-modernidade e os pós-modernos, apesar das origens teóricas díspares desses posicionamentos. Tal encontro, todavia, ainda não gerou uma formulação metodológica consistente no âmbito de nossa reflexão geográfica.

4) Observa-se, portanto, no panorama da geografia brasileira contemporânea, que a posição assumida em face da modernidade e do projeto moderno pode servir de referência na identificação de campos metodológicos e de projetos teóricos disciplinares díspares. O quanto cada projeto e cada perspectiva quer dialogar com a construção da nação e do país já se apresenta como um elemento caracterizador das várias posições em jogo. A relevância ou não dada à escala nacional emerge, na verdade, do ponto de vista político, como importante parâmetro na caracterização de cada proposição. No debate atual, a aceitação da possibilidade de formulação de um projeto de corte nacional já pressupõe a adesão a pressupostos hoje talvez minoritários nas ciências humanas, entre esses, uma visão positiva da capacidade de organização institucional da sociedade e num certo desempenho democrático progressivo do Estado.

Em grande parte, o otimismo realista na periferia do mundo contemporâneo está em acreditar na possibilidade de efetivação do projeto moderno nessas áreas do planeta. Vivemos uma modernidade inconclusa em seus elementos basilares, um ideário iluminista radical é aqui revolucionário (obviamente, no sentido gramsciano da "guerra de posições") [18]. Cidadania plena, direitos assegurados, emprego, renda mínima, políticas sociais universalizadas e de qualidade, proteção ao meio ambiente, estímulo à cultura, enfim, um horizonte de reinvidicações que integram um projeto democrático de país. Se o conhecimento geográfico deve se engajar enfaticamente nessa construção constitui, em si, uma postura de método, com pressupostos e desdobramentos epistemológicos específicos.
É claro que a construção desse projeto no Brasil não pode ocorrer como uma cópia tardia do processo passado alhures, mas manifesta-se determinada pelas particularidades históricas e geográficas já apontadas no presente texto. Em termos das mediações espaciais, a condição periférica emerge como essencial na localização do país na economia-mundo; em termos temporais, a atualidade do momento do modo de produção (com suas formas de socialização e acumulação próprias) deve ser bem apreendida. No cruzamento de tais determinações vislumbra-se a singularidade brasileira, que se apresenta para nós como o enigma da esfinge: decifra-me ou te devoro.

A densidade geográfica de nossa formação e de nossa atualidade [19] impõe um forte conteúdo de particularidades nacionais a serem levantadas e interpretadas pelos geógrafos, cuja explicação adequada aparece como condição para se propor um projeto viável de nação para o Brasil. Explicitar posicionamentos metodológicos, adestrar o instrumental analítico com que se opera, clarificar os conceitos e teorias utilizadas, são fundamentos prévios ao propósito de gerar uma geografia que oriente a instalação da modernidade que queremos para o país. Para tanto temos que abandonar o ideal de buscar de imediato uma utopia celeste (o céu na Terra) e superar a desesperança do inferno do presente. É o que anima o caminho na trilha do purgatório...

Notas

[1] Diz Renato Janine Ribeiro em corajosa análise do tema: "Problemáticas de ponta - que não estão dadas, prontas, mas precisam ser construídas - só poderão ser definidas por um diálogo mais intenso entre nós mesmos. Devemos quebrar um tanto as fronteiras das disciplinas e dialogar mais aqui, com menor ansiedade de cada um de nós criar seu vínculo internacional - enquanto esse vínculo for pautado pela dependência, ou pela integração individual, que nos deixam quase sempre em posição subalterna. Enfraquecemo-nos muitíssimo se nos internacionalizamos sem, antes, constituir um forte e enriquecedor diálogo com quem está mais perto de nós... É claro que sempre trabalharemos autores e teorias que vão muito além das fronteiras. É claro que nada disso significa repudiar os clássicos ou negar o diálogo internacional. Mas o que não nos convém é a dependência abobada das modas mundiais, só porque saem em inglês ou francês" (A universidade e a vida atual. Fellini não via filmes. Rio de Janeiro: Campus, 2003, p. 147).

[2] Em Condição pós-moderna, ele começa sua análise do tema constatando a "mudança abissal nas práticas culturais, bem como político-econômicas, desde mais ou menos 1972" (p. 5). E reafirma esta idéia mais a frente: "o único ponto geral de acordo é que alguma coisa significativa mudou no modo de funcionamento do capitalismo a partir de mais ou menos 1970" (p. 163). E completa: "O estranho é quão radicais algumas dessas respostas deram a impressão de ser e quão difícil foi para a esquerda, em oposição à direita, lidar com elas" (p. 319).

[3] Anthony Giddens, por exemplo, entende que a insegurança subjetiva marca centralmente o ethos contemporâneo (As conseqüências da modernidade. São Paulo: Editora da Unesp, 1991).

[4] Tomamos emprestada esta expressão de André Martin ("Portugal, Brasil e a Perspectiva Meridionalista". Lisboa: Congresso Brasil-Portugal Geografia, 2000). Sobre a aplicação da análise gramsciana para uma escala global hoje, ver Nádia Urbinati. "From the periphery of modernity: Antonio Gramsci's theory of subordination and hegemony". Political Theory 26/3, Tulsa: Sage, 1998.

[5] O tema da importação de idéias e da "imitação" é equacionado em sua ambiguidade e complexidade por Roberto Schwarz em Um mestre na periferia do capitalismo (São Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2000).

[6] Para um bom equacionamento dessa questão, pode-se consultar Edgardo Lander (Org.). La colonidad del saber: eurocentrismo y ciencias sociales. Buenos Aires: Clacso, 2003. Ver também Samir Amin. Eurocentrismo. Crítica de una ideologia. México: Siglo XXI, 1989.

[7] O descompasso entre as teorizações de vanguarda apoiadas na análise da vida social dos países centrais e as questões políticas atuais postas para as sociedades dos países periféricos pode ser aferida, por exemplo, na excelente tese de doutoramento de Iole Ilíada Lopes, O território e os Estados pós-nacionais: Uma abordagem geográfica das teorias recentes de Jürgen Habermas (DG/FFLCH/USP, 2004).

[8] Tanto a exacerbação do espaço como chave para a interpretação do presente (como sugere E. Soja) quanto seu aniquilamento pela velocidade e simultaneidade (como entende P.Virilio) expressam enfoques parcializantes, unidimencionais. Sobre as múltiplas dimensões da realidade e os campos disciplinares, ver Antonio Carlos Robert Moraes. Geografia, capitalismo e meio ambiente. Tese de Livre-Docência DG/FFLCH/USP, 2000, primeira parte.

[9] Vale aqui uma citação de Norberto Bobbio: "As ideologias do passado foram substituídas por outras, novas ou que pretendem ser novas. A árvore das ideologias está sempre verde" (Direita e Esquerda. Razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Ed.Unesp, 1995, p. 33).

[10] É importante assinalar essa associação entre a visão de um mundo planetário (sem fronteiras), imerso em uma mesma dinâmica comum (homogenizadora), e a imediaticidade de cada lugar terrestre (em sua singularidade). Nessa perspectiva, a análise geográfica operaria em apenas duas escalas, a global e a local, sendo irrelevantes outras óticas escalares intermediárias (entre elas, a nacional). Nesse arranjo teórico, a escala global seria reveladora das estruturas e da dinâmica econômicas, enquanto a localidade seria apreendida numa visão culturalista. Não raro, gera-se um equacionamento da vida social onde a cultura é contraposta à economia, concebendo-se o cotidiano como uma disputa entre as identidades locais e a homogeinização globalizante, na qual o papel do cientista humano (como sujeito do conhecimento e como ator social) não fica bem especificado. Isso explica o apelo das causas "nítidas" quando aflora certa politização nas geografias pósmodernas, como a questão indígena ou a da conservação de ecossistemas específicos, por exemplo.

[11] Milton Santos. A natureza do espaço. Técnica e tempo. Razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 91-3.

[12] A postura antiestatista hoje predominante em alguns campos das ciências humanas tem uma forte inspiração nas formulações de Michel Foucault. Apontamos as dificuldades escalares de se trabalhar com tal orientação na análise geográfica em texto escrito há quase vinte anos: "Michel Foucault e a Geografia". In: Italo Tronca (Org.). Foucault Vivo. Campinas: Pontes, 1987; republicado em Boletim Paulista de Geografia, 66, São Paulo: AGB, 1988.

[13] Trata-se de um trecho conhecido do Manifesto Comunista, texto que pode ser analisado, tal como fez Marshall Berman, como uma obra modernista (Tudo o que é sólido desmancha no ar. A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986). Para o marxismo ocidental, pode-se consultar Nelson Brissac Peixoto. A sedução da barbárie. O marxismo na modernidade. São Paulo: Brasiliense, 1982.

[14] Ler (ou reler) José Arthur Giannotti, "Formas da sociabilidade capitalista". In: Trabalho e Reflexão. São Paulo: Brasiliense, 1983. Ver também sobre a dinâmica da vida prática Maria da Conceição Tavares e José Luís Fiori (Orgs.). Poder e dinheiro. Uma economia política da globalização. Petrópolis: Vozes, 1998.

[15] Tal concepção extranha ao marxismo até aqui citado, difunde-se com o advento do maoísmo e da Revolução Chinesa. Na América Latina é reforçada pelo êxito da Revolução Cubana, que propaga a teoria dos focos de insurreição popular, de base rural. No Brasil, o setor mais radical da esquerda católica, agrupado na Ação Popular, adota essa orientação já no início dos anos sessenta (para uma exemplificação historiográfica desse posicionamento, ver Amaro Helio Leite da Silva. Serra dos Perigosos: resistência indígena no alto sertão de Alagoas (década de 1960). Maceió: Dissertação de Mestrado em Sociologia/Ufal, 2005).

[16] Uma avaliação bastante dura das experiências comunistas no século XX é apresentada por Agnes Heller e Ferenc Fehér em obra da década passada. Entre os casos tratados, o Cambodja aparece com certo destaque como "uma sociedade de neobarbárie produzida experimentalmente". Para eles: "o comunismo agrário dos khmers vermelhos foi capaz de realizar a barbárie moderna em sua máxima expressão: a destruição física deliberada da civilização mecânica como algo negativo" (El péndulo de la modernidad. Una lectura de la era moderna después de la caida del comunismo. Barcelona: Península, 1994, p. 218).

[17] Sobre este ponto cabe apelar novamente para Norberto Bobbio: "O tema da mediocridade democrática é tipicamente fascista. Mas também é um tema que encontra seu ambiente natural no radicalismo revolucionário de qualquer coloração" (ob. cit., p. 57). Do mesmo autor vale consultar O futuro da democracia. São Paulo: Paz e Terra, 2000. Para um resgate do legado marxista quanto à matéria, ver Agnes Heller. Para mudar a vida. Felicidade, liberdade e democracia. São Paulo: Brasiliense, 1982. E, para uma abordagem bem atual, Ellen Meiksins Wood. Democracia contra capitalismo. A renovação do materialismo histórico. São Paulo: Boitempo, 2003.

[18] Eric Hobsbawm considera que a barbárie contemporânea se apresenta fundamentalmente como uma plataforma "antiiluminista". Para ele, o Iluminismo é "a única base para todas as aspirações de construir sociedades adequadas a todos os seres humanos em qualquer parte da Terra e para a afirmação e a defesa dos seus direitos como pessoas" ("Barbárie: o guia do usuário". In: Emir Sader (Org.). O mundo depois da queda. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, p. 16-7).

[19] Ver Antonio Carlos Robert Moraes. Território e história no Brasil. 2. ed. São Paulo: Annablume, 2005.

 
 

Antonio Carlos Robert de Moraes é professor titular do Departamento de Geografia da USP e vice-coordenador do Núcleo de Apoio à Pesquisa sobre Democratização e Desenvolvimento (NADD-USP). Publicado en “Gramsci e o Brasil”, febrero 2006 http://www.acessa.com/gramsci
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